As imagens mais chocantes registram o que esses mercados
destinam aos cães. Os mesmos cães que aqui
viram membros da família, ajudam cegos ou orientam
equipes de salvamento. Lá, cachorros são comida.
E não se deixe enganar: esses mercados chineses não
existem para "matar a fome do povo". Chineses
pobres comem frango e peixe. Os cães são "iguarias"
caras, assim como gatos, escorpiões, cobras, enguias
etc.
Eu
tive a chance de ver fotos e vídeos desses mercados.
Os cozinheiros acreditam que a adrenalina no sangue dos
cães amacia a carne. Quanto mais sofrimento, mais
apetitoso o prato. Em nome dessa carne macia, a palavra
de ordem é torturar os cães até a morte.
Eu já vi a foto de um pastor alemão sendo
enforcado na viga de uma cozinha, sendo puxado pelos pés.
Eu já testemunhei um vira-latas com as patas dianteiras
amarradas para trás do corpo e desisti de imaginar
o tamanho de sua dor. Assisti ao vídeo de um cão
magrinho que foi mergulhado em água fervendo, retirado,
teve sua pele inteirinha arrancada e ainda olhava a câmera,
tremendo junto à panela onde foi cozido em vida.
A
pergunta básica é: nós, humanos, temos
direito a isso? Quem nos deu esse direito? Temos o direito
de jogar uma lagosta viva na água fervente? Temos
o direito de comer um peixe fatiado ainda vivo no seu prato
num restaurante japonês? Temos o direito de prender
bezerros em lugares escuros, imobilizados por toda sua curta
vida, por um vitelo? Nosso paladar é tão importante
assim na ordem das coisas? Um sabor diferente em nossas
bocas justifica tudo?
A
questão ultrapassa a esfera da ética e da
civilidade. A Sars nasceu no chão imundo dos mercados
chineses. A doença da vaca louca - permanente ameaça
na nossa pátria do churrasco - surgiu quando obrigamos
o gado a se canibalizar. O terrível ebola se espalha
com cada homem africano que devora nossos primos biológicos,
gorilas e chimpanzés. Vírus mutantes saltam
do sangue de aves para o dos homens sem defesas naturais.
Segundo a revista inglesa The Economist, nada menos que
60% das doenças humanas surgidas nos últimos
20 anos têm origem em outras espécies animais.
Tony McMichael, pesquisador da Universidade Nacional de
Austrália, é bastante claro: "Vivemos
num mundo de micróbios. Precisamos ser um pouco mais
espertos no jeito como manejamos o mundo ao nosso redor."
Mercados
chineses e churrascos africanos parecem fenômenos
distantes. Mas o brasileiro continua dependendo demais de
alimentação animal. Temos uma churrascaria
por quarteirão, e numa cidade de 12 milhões
de habitantes, como São Paulo, contam-se nos dedos
os restaurantes vegetarianos. E ainda temos um lobby querendo
ampliar a oferta de animais nas geladeiras: avestruzes,
capivaras, jacarés, tudo criado em cativeiro com
carimbo do Ibama. A cada nova espécie consumida pelo
homem, mais uma mistura de vírus - algumas combinações
inofensivas, outras não.
Para
tentar controlar essas doenças, cometemos mais brutalidade:
enterramos milhões de aves vivas, afogamos gatos
selvagens em piscinas de desinfetante. Provocamos o desastre
e massacramos as vítimas. Temos um caminho inteligente:
racionalizar, humanizar e diminuir cada vez mais o consumo
de animais. Ou podemos continuar o banho de sangue. Aí,
todos nós pagaremos o preço.
Quando
uma borboleta bate as asas na Europa, pode iniciar um furacão
no oceano Pacífico. A Sars começou em mercados
chineses e chegou ao Canadá. A gripe aviária
já se espalhou por diversos países asiáticos
e ameaçou lugares distantes como o Paquistão
e a Itália. Num mundo de vôos diretos, os gritos
desesperados de um cachorro chinês podem chegar um
dia ao Brasil por meio de alguma nova e tenebrosa sigla.
Dagomir Marquezi, jornalista