Deputados
querem revogar dispositivos do Código de Proteção
Aos Animais
LÍVIA MARRA
Editora de Cotidiano da Folha Online
Deputados
apresentaram três projetos de lei com o objetivo de
revogar dispositivos do Código de Proteção
Aos Animais, que entra em vigor no próximo mês
no Estado de São Paulo, afirmou na noite desta quarta-feira
o presidente da Assembléia Legislativa, Rodrigo Garcia
(PFL).
A
lei, de autoria do deputado Ricardo Tripoli (PSDB), tem
sido motivo de discussão entre parlamentares, produtores
rurais e entidades de defesa dos animais.
Entre
os pontos considerados conflitantes por entidades ligadas
ao agronegócio está um dos artigos que trata
dos animais criados para o consumo. O artigo 18 diz que
é vedado "privar os animais de liberdade de
movimento, impedindo-lhes aqueles próprios da espécie;
submeter os animais a processos medicamentosos que levem
à engorda ou crescimento artificiais; impor aos animais
condições reprodutivas artificiais que desrespeitem
seus respectivos ciclos biológicos naturais".
A
lei também proíbe apresentações
de animais em circos e, no caso de rodeios, estabelece que
não sejam usados instrumentos que provoquem reações
nos animais, entre outros itens. O Código restringe
a utilização de bichos em experimentos, além
de determinar a criação de comissões
de éticas nas instituições que usam
os animais em pesquisas. Conforme o Código, fica
vedada a morte de cães ou gatos por "métodos
cruéis", que incluem câmaras de descompressão
ou gás, eletrochoque ou qualquer método que
provoque dor, estresse ou sofrimento.
Enquanto
ONGs de defesa comemoram a lei, produtores afirmam que ela
pode provocar a desestabilização de importantes
atividades no Estado, além de representar um ônus
a mais para o setor. Nesta quarta, Tripoli disse, em entrevista
à Folha Online, que vê a lei como um "selo
de qualidade" para o setor e que os ajustes deverão
ser feitos na regulamentação. Admitiu, porém,
que deverá rever o dispositivo que trata da inseminação
artificial.
"Eu
acho que tenho que fazer um projeto com um ou dois artigos
que esclareça exatamente o que nós quisemos
dizer na lei aprovada, mostrando que é permitida
a inseminação artificial. Da maneira como
está colocada passa dúvida quanto a isso."
Segundo ele, não deverá haver restrições
neste sentido.
Sobre
o confinamento, o deputado também admite que a interpretação
pode ser equivocada. "O que estamos tentando segurar
é o confinamento do animal em uma baia e, pelo fato
de ele não criar musculatura, se injetar anabolizante
e, quanto atingir o peso, ir para o abate."
O
governador Geraldo Alckmin (PSDB) havia vetado a lei, mas
o veto foi derrubado. A lei 11.977 foi assinada em 25 de
agosto, com 45 dias para entrar em vigor e 180 para ser
regulamentada.
Negociação
Entidades
ligadas ao agronegócio e a espetáculos estiveram
reunidas nesta quarta-feira na Assembléia Legislativa
para discutir a lei. Um grupo havia pedido para ser recebido
pelo presidente da Casa, mas, segundo participantes, cerca
de 500 pessoas ligadas ao setor agropecuário, rodeios
e circos compareceram para demonstrar insatisfação
com o Código. "Fiquei surpreso com a quantidade
de gente", disse o deputado Rodrigo Garcia.
De
acordo com ele, os projetos de lei para tentar revogar os
dispositivos foram apresentados pelos deputados Edson Gomes
(PFL), José Crespo (PFL) e Vanderlei Macris (PSDB).
"Isso
é o que cabe a nós fazer. Esses projetos agora
vão tramitar na Assembléia Legislativa",
afirmou. Como resposta aos setores atingidos pela lei, o
presidente da Assembléia afirmou também que
o governador Geraldo Alckmin pode entrar com uma ação
direta de inconstitucionalidade relacionada a alguns artigos
da lei, caso considere necessário.
O
deputado Romeu Tuma (PMDB) sugeriu, nesta quarta, apresentar
uma proposta conjunta de revogação da lei.
De acordo com a Assembléia, o 2º secretário,
deputado Geraldo Vinholi (PDT), propôs que a Casa
atue para que o Ministério Público não
tome nenhuma iniciativa para interromper alguma atividade
da área enquanto a lei não estiver regulamentada.
O
presidente da Conferência Nacional de Rodeios, Roberto
Vidal, que também esteve na Assembléia, afirmou
os representantes dos setores saíram com a esperança
de mudanças no Código. No caso dos rodeios,
Vidal diz que todos os equipamentos utilizados já
estão adequados a uma lei federal que trata do tema.
Polêmica
Para
a Faesp (Federação da Agricultura do Estado
de São Paulo), a lei poderá trazer reflexos
negativos, como elevação dos custos, diminuição
da produtividade e demissões. A federação
afirma que recorrerá a todos os mecanismos para tentar
modificar o Código.
De
acordo com informações da Assembléia
Legislativa, Carlos Viacava, da Associação
dos Criadores de Gado Zebu, é da mesma opinião.
"Todo ano, exportamos carne bovina que nos dá
um retorno de cerca de R$ 3 bilhões. Grande parte
dessa produção, feita por São Paulo,
será prejudicada se a lei entrar em vigor. Perderemos
empregos em atividades econômicas importantes",
disse.
Já
o advogado e consultor jurídico da Aila (Aliança
Internacional do Animal), Mário Martins Lourenço
Filho, discorda do posicionamento. "A previsão
da lei faz uma certa restrição ao modo pelo
qual se promove a criação deste animal. Ele
não veda que se crie o animal. Eles vão ter
que adequar a criação à lei, inclusive
tendo que ampliar espaços, o que poderá gerar
mais empregos."
Para
a Aila, a lei representa um passo importante para o país.
Lourenço Filho afirma que "há que se
defender a legalidade e legitimidade" de qualquer tipo
de lei que tenha como objetivo a proteção
dos animais. De acordo com o advogado, outro ponto de comemoração
é referente à proibição de animais
em circos, uma das bandeiras da ONG.
Para
Tripoli, os animais de circo deveriam ser devolvidos ao
seu habitat ou encaminhados a centros de triagem de animais
silvestres e zoológicos.
"A
gente tem visto constantemente que leões, ou animais
com certa idade, são colocados em jaulas e abandonados
na periferia de São Paulo. Para evitar esse tipo
de coisa, a gente está tentando ver se o circo sobrevive
com outras atividades. Existem vários circos no mundo
que se apresentam com a figura do palhaço, dos malabaristas,
com apresentações de música",
disse o deputado.
A
punição prevista na lei vai de advertência,
multa até a perda da guarda, posse ou propriedade
do animal. Estabelecimentos ligados a experimentos poderão
ter financiamentos suspensos ou ser interditados.