Entrevista com o Professor Cláudio

A Aliança Internacional do Animal tem batalhado ao longo desses anos em várias áreas contra a crueldade com animais, sendo uma delas a vivissecção, ou seja, o uso de animais em experimentos.

Para todos que atuam na área de proteção, recebemos como um avanço para diminuir esta prática a vídeo-aula produzida pelo Professor Dr. Cláudio Alvarenga de Oliveira e sua equipe. Representantes da ONG estiveram em sua sala na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, no dia 31 de maio de 2006, para conversar sobre esse método alternativo á prática de vivissecção no ensino da Medicina Veterinária.

Esperamos que essa iniciativa sirva de incentivo para que outros profissionais da área possam contribuir para evitar práticas experimentais com animais.

Como surgiu a idéia de fazer uma vídeo-aula?

A idéia surgiu quando constatamos que em uma aula prática, por exemplo, com 80 alunos, eram utilizados um a dois ratos por aluno, sendo sacrificados em média 100 animais durante essas demonstrações. Essa prática era questionada, inclusive pelos próprios alunos e começou a se pensar na possibilidade de utilizar uma metodologia diferente.

Mas existem sempre dois lados da moeda. Uma questão é você fazer a demonstração com o aluno mexendo no animal, tocando o animal e podendo sentir como é trabalhar com o animal vivo. A outra coisa é você assistir a um vídeo e entender teoricamente como as coisas funcionam. É a velha questão entre a teoria e a prática. Existe a necessidade real de fazer as duas coisas. Entretanto, com o passar do tempo, percebeu-se que havia métodos alternativos para a realização desses procedimentos.

Nos últimos anos, a sociedade tem se sensibilizado pela questão animal e, principalmente, na minimização da utilização dos animais em testes de laboratórios. Através do uso da tecnologia, tem-se pensado em outras opções para que se evite o sacrifício de inúmeros animais em laboratório.

A vídeo-aula que criamos é uma metodologia de ensino que permite que animais sejam poupados com a exibição de cirurgias. O filme é exibido para os alunos do terceiro semestre da disciplina de fisiologia da reprodução e da lactação e mostra uma cirurgia de extração de ovários e testículos de ratos. O vídeo ensina a ação dos hormônios sexuais no organismo dos animais. O enfoque principal dessa vídeo-aula é poupar os animais criados em laboratório. O que está em jogo é o uso consciente visando ao bem-estar animal. Está se falando em muitos animais, como ratos, coelhos, cobaias, macacos e cães.

O que se procura seguir atualmente são os princípios da Bioética animal baseados nos 3 Rs em inglês: Replacement (Substituição), Refinement (Refinamento), Reduction (Redução).

Esses princípios foram utilizados quando a vídeo-aula foi pensada.
a) Replacement: A substituição da aula prática real pela aula prática em vídeo.
b) Refinement: São utilizadas anestesias de última geração para evitar que o animal sinta dor no procedimento. Anteriormente, não havia essa preocupação com a dor do animal. O refinamento decorre do apuramento da técnica para a anestesia e da existência da preocupação com o animal.
c) Reduction: A diminuição do número de animais para o ensino da prática.

O aluno de medicina veterinária que opta apenas pela parte teórica pode usar apenas o vídeo, mas o aluno de medicina veterinária comum precisa ser, minimamente, treinado no animal. A formação do profissional veterinário é nos dois primeiros anos, uma formação teórica e do terceiro ano em diante, há a formação prática onde o aluno precisa ter um maior contato com o animal.

TESTES EM ANIMAIS

Partindo da afirmação que os seres humanos são diferentes fisiologicamente de outros animais, qual seria a validade para nós, humanos, dos testes realizados em animais? Você não acha que nós estamos sendo constantemente testados devido aos inúmeros medicamentos que são retirados do mercado?

Concordo que nós somos diferentes, mas não tão diferentes. Diria que somos 10% diferentes e 90% semelhantes. Por exemplo, o genoma humano é 90 por cento igual ao genoma do Chimpanzé. Não há como negar que as reações fisiológicas sejam diferentes.

Existe uma média, feita pela estatística, para o teste em pessoas. Em um exemplo hipotético, para se aplicar o medicamento em 01 milhão de pessoas – 100 pessoas precisam ser testadas.

Particularmente, eu sou contra testes em animais para a indústria de cosméticos. São substâncias que têm efeitos menores para os humanos e, portanto, não há a necessidade de serem realizados em animais. No caso de efeitos maiores, com o risco de morte, não se pode negar a importância dos testes em animais, a princípio.

Mas será que temos o direito de fazer isso? Essa pergunta não era feita anteriormente. Entendia-se que o animal por ser considerado um ser inferior pelos humanos, podia sofrer as conseqüências, inclusive a morte. Agora, percebe-se que a sociedade está se voltando para os valores da natureza, preocupando-se com o meio ambiente e preocupando-se em construir uma ética com relação aos animais. No entanto, em caso de risco de morte, há a tendência da sociedade em aceitar esses testes de laboratórios.

O que hoje procuramos na medicina veterinária, é buscar alternativas para se evitar procedimentos que coloquem em risco o animal e procedimentos que diminuam o número de animais utilizados em pesquisa. Essas alternativas não eram antes utilizadas, nem mesmo pensadas.

COM RELAÇÃO AOS TESTES
Qual deveria ser a postura das indústrias com relação aos testes em animais?

As indústrias devem ter em seus produtos, rótulos definindo se o produto foi testado ou não em animais. Quando testados em animais estes produtos devem esclarecer ao consumidor, como foi o teste, qual a metodologia do teste, se houve ou não o sacrifício de animais, quantos animais foram testados e qual a justificativa desses testes. Isto é necessário para que ocorra uma maior transparência dessas indústrias e haja um maior controle pelo consumidor.

SOBRE A LEI QUE PROÍBE A VIVISSECÇÃO

Está em discussão na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro um projeto de lei do vereador Cláudio Cavalcanti, proibindo a vivissecção. Qual a sua opinião sobre essa proibição?

Temos um processo ainda muito longo e amplo sobre as leis ambientais e sobre a bioética. Essa preocupação começou com a Constituição de 1988. As leis são ainda muito recentes em matéria ambiental. Mas para o progresso dessas leis há a necessidade de organizações criteriosas que lutam pela causa e não organizações radicais.

Banida a vivissecção, os alunos poderiam vivenciar a vida clínica, acompanhando os profissionais já formados, além de outras técnicas que podem ser utilizadas como os vídeos práticos. Para o ensino da prática médica temos: Primeiramente, a técnica de olhar, observar. O aluno aprenderá olhando diversos procedimentos e acompanhando profissionais no atendimento. Em um segundo momento, o aluno poderá auxiliar esse profissional na condução do atendimento. E em um último momento, o aluno realizaria os procedimentos, sempre acompanhados por profissionais, o que já seria residência médica.

O entrevistado é Professor associado e livre docente da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – USP, pós-doutor em endocrinologia reprodutiva animal pela Universidade da Flórida, Gainesville, EUA. É responsável pela Disciplina de Fisiologia da Reprodução e da Lactação e Coordenador da linha de pesquisa “Endocrinologia Reprodutiva Animal”. E-mail cadolive@usp.br para contato.