"Nem
todo mundo que entra na USP tem um futuro brilhante".
Com esse slogan e uma foto de um cachorro em outdoor, a
universidade do campus da USP, capital, lançou há
pouco, uma campanha para diminuir o abandono de cães
e gatos neste local. A idéia é estimular o
debate sobre o assunto e fazer com que as pessoas denunciem
casos de abandono e maus-tratos, além de estimular
a adoção dos que estão alojados em
um laboratório veterinário dentro da prefeitura
da Cidade Universitária, no campus do Butantã
– zona Oeste.
Folders
e cartazes foram distribuídos, chamando a atenção
da população sobre o conceito de posse responsável
e do controle de natalidade dos animais domésticos,
que procriam de maneira exponencial. Os CCZs (Centro de
Controle de Zoonoses) só não estão
abarrotados porque os sacrificam, de uma maneira geral,
sem chance, sem piedade, de forma muito cruel, abominável.
O
ponto central dessa questão é o amor à
vida, pois ela não deve ter o homem como exclusividade,
e esse abandono significa uma falta de educação,
como pensa a professora Julia, da Faculdade de Medicina
Veterinária e Zootecnia da USP (FMVZ), que a tenho,
dentro dos meus princípios profissionais e éticos,
mesmo sem conhecê-la pessoalmente, uma assumidade
em pessoa, que divide até umas bolachinhas com os
bichinhos esfomeados. Uma grande lição aos
zootécnicos em formação, ou aos que
precisam de uma reformulação de conceitos.
As
tristes observações no campus de gatos enforcados,
com olhos furados, queimados e cães de pernas fraturadas,
esfaqueados, ou feridos com tiros de borracha, sensibilizaram
a equipe de Julia a tomar esta coerente decisão.
Claro
que essa situação não se restringe
apenas no campus da capital. Nos campi do interior, vira-e-mexe,
encontram-se novos bichos (não alunos), principalmente
perto de restaurantes universitários, tímidos,
medrosos, esqueléticos em busca de alimentos. Os
gatos são os mais abandonados, porém, permanecem
mais discretos, de acordo com seu astuto temperamento.
Nesses
locais de ensino, de educação, cuja função
é formar cidadãos conscientes, que, dentre
os quais, temos o atual ministro da agricultura do governo
Lula, Roberto Rodrigues, formado em engenharia agronômica,
na Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz),
em Piracicaba, existem os que chutam os cães, destroem
casinhas de gatos, feitas com carinhos pelos voluntários,
que cuidam com muito amor desses animaizinhos, quando não
os encontram envenenados, praticamente destroçados,
com seus miados tristes, agonizantes, desesperados pela
dor, por passar dias e mais dias de sofrimento.
Já
se constatou muitos relatos de maus-tratos nesses locais,
e o símbolo disso, na Esalq, é a cadela Xuxa,
dócil, amorosa, que depois de trucidada, com arcada
dentária superior cravada no queixo, com a coluna
fraturada pelas pauladas desferidas por um insano, cruel,
miúdo de amor, de sensibilidade e de caráter,
ainda chegou se arrastando ao seu reduto, quando seu algoz
pensava ter concretizado seu intento. Por exercer um cargo
de confiança, calou a boca de quem sabia, mas não
calou a voz de sua consciência, que, embora esteja
em estado de profunda latência, movido pela sua própria
ignorância, mais tarde irá prestar contas de
seus atos à justiça divina.
A
campanha desse grupo do campus da capital, com o apoio do
Fundo de Cultura e Extensão Universitária,
é digna de elogios e deve ser estendida a todas as
universidades do país, contribuindo para aumentar
a consciência das pessoas para que não abandonem,
não descartem esses pobrezinhos como se fossem meros
objetos.
Que
o exemplo, inclusive, de alguns veterinários da USP,
sirva para que os veterinários de todos os locais
do país ajam com presteza, com ética, através
da mídia, e ajudem no combate às barbáries
cometidas contra os animais, prestando um grande benefício
ao colaborarem com a esterilização, e, principalmente,
ao se pronunciarem sobre tantas inverdades que os leigos,
sem papas na língua, tentam colocar na cabeça
dos mais ignorantes, ainda, a respeito de doenças
transmitidas pelos animais, do gato preto que dá
azar, e de outras crenças absurdas que somente fazem
aumentar o abandono dos pobrezinhos.
João O. Salvador
Biólogo da USP (Universidade de São Paulo)
colaborador do Jornal de Piracicaba,
Gazeta de Piracicaba e Tribuna Piracicabana.