Substância
permite reutilizar cadáveres de animais para treinamento
de alunos
Rafael
Veríssimo / Agência USP
Professores
da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia
(FMVZ) da USP estão utilizando uma substância
que diminui o sacrifício de animais para fins educativos.
A solução de Larssen, usada para embalsamar
cadáveres humanos, foi modificada por pesquisadores
da FMVZ, que adicionaram glicerina à fórmula
original. Aplicada no sistema vascular dos animais mortos,
a solução permite aos professores reutilizar
(congelar e descongelar) um cadáver por até
sete ou oito vezes, equivalentes, aproximadamente, a um
semestre letivo.
Quando
buscavam alternativas para a eutanásia animal, os
pesquisadores da FMVZ encontraram num hospital da França
a solução de Larssen. Aplicada nos animais,
no entanto, a solução francesa ainda mantinha
os tecidos enrijecidos. O problema foi resolvido pelo professor
da FMVZ, Antônio Augusto Coppi Maciel, que introduziu
400 mililitros (mL) de glicerina líquida na fórmula-mãe
da solução, que ainda conta com 100 mL de
formalina a 10%, 200 gramas (g) de bicarbonato de sódio,
200 g de hidrato de cloral, 180g de cloreto de sódio
e 2000 mL de água destilada.
O
uso da solução, que acontece desde 2000 na
FMVZ, permite que os cadáveres quimicamente tratados
preservem seus tecidos (principalmente pele e músculos)
com a mesma cor e flexibilidade de quando os animais estavam
vivos, além de não desprenderem o cheiro característico
de putrefação.
Treinamento
Submetidos à substância modificada, os cadáveres
de cães doados por seus donos ao Hospital Veterinário
(Hovet) da FMVZ, são usados na disciplina de Técnica
Cirúrgica da faculdade para o treinamento de nós
e suturas, de técnicas de reconstrução
da pele (anaplastia), cirurgias da orelha, da cavidade oral,
de anastomose intestinal (em que se corta e sutura o intestino
novamente) e esofagotomia vertical. Também são
feitos treinamentos de traqueostomia, ressecção
de glândula mandibular e sublingual.
As
cirurgias de castração de machos (orquiectomia)
e fêmeas (ovariosalpingohisterectomia), realizadas
em animais vivos, são feitas com supervisão
de professores em campanhas de castração do
Hovet, treinamento que possibilita um aprendizado também
utilizando animais vivos.
"Antes,
sacrificávamos cerca de 440 cães saudáveis
por ano para que o aluno pudesse treinar sua destreza cirúrgica.
Hoje, utilizamos apenas 40, sendo que todos já estavam
mortos quando chegaram a nós", aponta Júlia
Maria Matera, professora de Técnica Cirúrgica
da FMVZ que começou utilizar o método em sala
de aula em 2000.
Avanço
ético
Segundo Júlia, os métodos alternativos de
treinamento cirúrgico vêm ganhando cada vez
mais espaço em todo o mundo. "Nos Estados Unidos,
das 31 faculdades de medicina veterinária existentes,
27 não fazem mais uso de animais vivos". Além
da utilização de cadáveres e de vísceras
de animais abatidos em matadouros, como acontece na FMVZ,
existem diversos aparelhos e instrumentos que simulam órgãos
e tecidos para o treinamento de estudantes. "No Brasil,
no entanto, a maioria das faculdades ainda usa animais vivo",
aponta Júlia.
A
professora destaca que, além de um avanço
ético, o método é um progresso no que
diz respeito ao estresse ao qual o estudante é submetido.
"Para grande parte dos alunos era difícil ver
o cão todo feliz, brincando com eles antes da aula,
sabendo que depois iríamos anestesiá-los e
sacrificá-los. Sem esse tipo de estresse o aluno
fica mais tranqüilo e consegue absorver mais o conteúdo
da aula", conta.
A
aceitação entre os alunos é alta. Em
mestrado entregue à FMVZ, a pós-graduanda
Rosane Maria Guimarães da Silva aponta que entre
190 estudantes que cursaram a disciplina de Técnica
Cirúrgica entre 2001 e 2003, 93,29% são a
favor do método de ensino que inclui o treinamento
inicial em cadáveres, seguido de castrações
em campanhas. Já 84,79% considerou que o conteúdo
da aula foi bem assimilado. Segundo Júlia Matera,
alguns alunos ainda consideram inadequado utilizar os animais
mortos em sala de aula no lugar dos vivos, que dariam mais
realismo ao aprendizado. Porém, para ela, "anormal
é usar animal vivo para o treinamento básico".
Mais informações: (0XX11)
3091-1232 / 1238 ou e-mail materajm@usp.br
fonte:
Ciência e Meio Ambiente - 26/07/2005 18:20