|
||||||||||||||||||
|
||||||||||||||||||
|
E como penso e logo existo, não posso deixar de mencionar este fato, no momento em que a emissora vem com a infeliz proposta de lançar uma novela, cujo mote é fazer apologia à prática ignorante do rodeio, atividade proibida em várias cidades e municípios do Brasil e do mundo. Retratar a determinação e a gana de gente humilde que consegue vencer na vida caindo do cavalo? O chão é o limite! E a cafonice e mau gosto não param por aí: o folhetim se passa nos Estados Unidos, que a autora intitulou, cumprindo a velha mania megalomaníaca e arrogante do povo americano de se autodenominar América. Como se nós, aqui embaixo, habitantes tupiniquins da selva, não fossemos, de fato, americanos!
Vôos rasantes sobre as praias de Miami, vales e rochedos, além do piscar das luzes ofuscantes das cidades do norte, serão retratados no melhor estilo fotográfico de Monjardim (que desperdiçou a chance de uma boa condução da história de Olga de Fernando Morais para se tornar um fiasco pretensioso do diretor), são prometidos para o horário nobre como um catálogo turístico do Tio Sam. Mas, e o rodeio? Que tem a ver com isso? Bem, não é à toa que a idéia infeliz desse esporte nasceu nos mesmos Estados Unidos, cuja avidez por sangue invadiu o Iraque no sentido de capturar armas fantasmas e aniquilar um velho inimigo das famílias Bush e Bin Laden - parceria tão explícita no filme de Michael Moore, Fahrenheit 11 de Setembro.
Mas, qual a relação da Globo com o George W. Bush? Nenhuma. Nada. Apenas, uma vontade de sugerir uma idéia criativa á autora da novela e que pode angariar muitos pontos na briga pela audiência: que tal convidar Bush, este texano que, certamente, deve adorar a prática de Rodeios e outros quitutes sanguinolentos, para uma cena de amor com a potranca Débora Seco? Bem sugestivo ao caubói-mor da América que é capaz de laçar seus eleitores para, enfim, derrubá-los nos campos santos forrados de latinos.
Esta avidez sanguínea do ser humano parece atravessar os tempos e dar provas que o ser humano ainda está nos primórdios da espiritualidade. O homem ainda não conseguiu sair da sua rusticidade ignorante. Somente um homo imbecilis é capaz de se divertir com a desgraça alheia. Afinal, qual é a graça de apertar os escrotos de um animal e o fazê-lo saltar de dor? Qual é a comédia em dar choques elétricos para que um bicho entre nervoso numa arena? Lembro-me então da queima total de gatos e bruxas da Santíssima Inquisição. Lembro-me, vagamente, das tardes no Coliseum de Roma, onde as cabeças dos cristãos eram varridas sob os aplausos vorazes de uma torcida débil e indecente, sedenta por carne humana e animal. Lembro-me, então, que ainda faço parte desta humanidade estacionária e açougueira.
Jayme Monjardim, autor de uma pérola da televisão brasileira, a genial Pantanal, exibida na extinta Rede Manchete, e que mudou os conceitos da teledramaturgia brasileira, está cavalgando trôpego para o abismo, simplesmente porque se vendeu aos apelos das encomendas diplomáticas e mercantilistas da emissora. Vai dirigir uma história pobre e vergonhosa, um lixo ecologicamente incorreto que será despejado aos olhares do público como um exemplo mal-cheiroso a ser seguido.
Glória? Como pode ser chamado de Glória alguém que gosta de retratar a queda e homenagear a imbecilidade e a decadência? Já não basta as estúpidas Farras do Boi em Santa Catarina e as rinhas de galo (já posso vislumbrar agora uma novela do Benedito Ruy Barbosa com o nome de Rei do Galo) daquele publicitário que, enquanto se divertia vendo penas sendo rasgadas, sua candidata perdia a Prefeitura de São Paulo?
Ai de ti, Rede Globo! A roda gira... A história costuma mostrar quedas vertiginosas e até abruptas ao longo da sua caminhada. O império persa ruiu. O império romano decaiu. Os Estados Unidos ainda estão de pé. E nós, esperamos, sinceramente, que a tua audiência, neste folhetim ridículo das oito, despenque. Despenque tanto que faça a América cair do cavalo. |
||