Vegetarianos radicais são magros, mas sadios, diz estudo
Vegetarianismo radical
- Por George Guimarães

Crianças que têm alimentação especial, por opção ou problema de saúde, contam como é o dia-a-dia e quais são os seus pratos preferidos

 
Crianças que têm alimentação especial, por opção ou problema de saúde, contam como é o dia-a-dia e quais são os seus pratos preferidos

Para muitas crianças, um hambúrguer com milk-shake é um dos lanches mais gostosos que existem, ainda que não seja algo muito saudável. Outras, no entanto, passam longe da possibilidade de fazer uma refeição assim.

São crianças que têm cardápios especiais, por motivos diferentes. Pode ser por opção pessoal, por gosto, por questões religiosas ou por motivo de saúde. Há crianças, por exemplo, que não toleram lactose, o açúcar do leite, portanto precisam tirar do cardápio esse ingrediente. Também têm na mira a gordura, que pode levar à obesidade e a problemas do coração.

Lucas Patrício, 10, descobriu há três anos que tem diabetes do tipo 1 e precisa controlar a quantidade de açúcar que come. “Não bebo refrigerante normal, só diet. Já me acostumei, levo uma vida normal. Se vou em festa, como mais normalmente, porque não dá para ficar contando a quantidade de carboidratos em tudo”, diz. Ao chegar em casa, Lucas faz o controle, que é medir o nível de glicose (açúcar) no sangue e tomar insulina se precisar.

Quem tem diabetes do tipo 1 não produz insulina suficiente para que o corpo absorva o açúcar. Pessoas mais velhas também podem desenvolver diabetes, mas é a do tipo 2, que em geral decorre da obesidade.

Esta época do ano é especialmente complicada para Lucas, por causa dos chocolates da Páscoa, que ele evita comer. Quando algum esquecido lhe dá doces, ele agradece e guarda o presente para dar para crianças carentes.

Já Mirian Wolff, 10, precisava emagrecer, sem que isso atrapalhasse seu crescimento. Ela foi orientada por uma nutricionista a fazer uma dieta que não restringisse grupos de alimentos, mas que diminuísse a quantidade deles. “Reparo que estou emagrecendo e crescendo. Tento me cuidar”, conta. “Já me controlo diante da comida. Mesmo se gosto muito, pego só um pouquinho.”

Além disso, ela pratica alimentação de acordo com a lei dietética judaica, com comida kasher (produtos inspecionados por rabinos no processo de produção), sem misturar carne e leite e sem consumir carne de porco e alguns frutos domar, por exemplo.

Opção

Para Joana Fusco Ximenes, 5, passa longe a possibilidade de morder um hambúrguer por dois motivos. «Não gosto de carne”, diz. Além de não gostar de carne, Joana também não come pão. “Só pão de queijo”, ressalva.

Ela cortou do cardápio carne vermelha, ovo e pães, mas diz que gosta muito de br&olis, melancia e melão, por exemplo, além de almôndega de frango. O prato preferido de Joana é yakissoba de legumes. Os pais dela também não comem carne, mas dizem que não impuseram o gosto à menina.

Os pais de Lucas, 7, e Lucios Veiga Guimarães, 5, seguem a dieta vegetariana, assim como os meninos (leia o texto ao lado sobre essa dieta). A alimentação deles, tanto em casa como na escola, tende a privilegiar frutas, legumes, verduras, cereais e sementes.

“Não como carne porque não gosto”, conta Lucios. Ele diz que a comida de que mais gosta é arroz integral e que, quando experimentou um pouco de refrigerante, aos 3 anos, achou que aboca estava queimando.

Orientação é essencial

Quem deixa de fora da dieta algum grupo de alimentos (carnes, pães e vegetais, por exemplo) tem de prestar muita atenção à saúde. “É preciso tomar bastante cuidado com a alimentação da criança vegetariana”, alerta o nutricionista George Guimarães, especializado em dietas vegetarianas e pai de Lucas e Lucios.

“A vitamina B12, por exemplo, só é encontrada em produtos de origem animal e tem um papel muito importante para o sistema nervoso”, conta. “Além disso, pode haver deficiência de proteína, ômega 3, ferro e cálcio”, diz.

Por isso, é importante que quem segue essa dieta tenha orientação profissional e consuma alimentos que possam suplementar esses nutrientes. “Os erros podem deixar seqüelas”, alerta o nutricionista.

“O carboidrato refinado [de pães e bolos, por exemplo] não vai fazer falta, mas a carne é muito rica em ferro. Há ferro também em vegetais verde-escuros [brócolis, couve], mas é preciso fatores que facilitam a absorção pelo organismo, como a vitamina C, encontrada na laranja, por exemplo”, explica a pediatra nutróloga Anne Use Dias Brasil.

“O importante é que a criança tenha uma dieta equilibrada, pois está crescendo. O radicalismo e os excessos causam problemas”, conclui. (AM)

Fonte: Folha de São Paulo - Folhinha - 18 de março de 2006


 

Vegetarianismo radical
Por George Guimarães

Há quem ache que matar animais é um direito natural do homem. Assim como já houve quem achasse natural na espécie humana o extermínio de uma raça por outra.

O cheiro de sangue é forte e pode ser sentido de longe. No mercado a céu aberto, o cliente escolhe o animal que lhe parece mais suculento. O golpe na virilha do cachorro é rápido, mas a morte não vem depressa. O sofrimento dura alguns minutos. Os animais que recebem o golpe na jugular têm mais sorte. Mas os abatedores de cães temem a mordida e preferem atacar o animal por trás.

Essa cena se repete diariamente na China. "Que absurdo", diriam os ocidentais, para quem os cães são animais de estimação. O mesmo diria um indiano diante da forma como tratamos bois e vacas. Não há diferença entre matar um boi e um cachorro para comer. O raciocínio vale também para o esfolamento de galinhas, porcos e outros animais.

Tortura, dor, sofrimento, desolação. Animais de várias espécies são tratados como mercadoria, apenas mais um bem de consumo. Morrem covardemente e seus cadáveres são vendidos aos pedaços. Crescem em ambientes artificiais, agressivos à sua natureza. Como pode um animal tão dócil quanto uma vaca ser privado do seu instinto materno só porque a indústria requer que se separe da sua cria quando esta tem apenas alguns dias de vida? Como as aves, animais territoriais, podem viver à razão de oito animais por metro quadrado e não se tornarem neuróticas? Isso para não falar das torturas exercidas nos testes dos laboratórios científicos, mesmo existindo alternativas para o desenvolvimento de novos produtos.

Há quem ache um direito natural do homem submeter os animais a todo tipo de crueldade, assim como já foi natural, no passado, que algumas pessoas se julgassem superiores às outras pela diferença da cor da pele ou do credo religioso. Foi preciso que grupos abolicionistas e humanistas surgissem, mesmo sendo ridicularizados e discriminados no início, para que os homens enxergassem o absurdo na forma como tratavam outros seres humanos. Haverá um momento em que o homem, auxiliado por um novo tipo de abolicionistas - que falam por seres que não podem falar por si - , saberá que os outros animais não são sua propriedade. São seres com direito à vida.

Enquanto esse dia não chega, pagamos um alto preço sofrendo de doenças ligadas ao consumo de produtos animais. Obesidade, doenças cardiovasculares, diversos tipos de câncer, alergias e outros problemas de saúde que afetam boa parte da população de países desenvolvidos como os Estados Unidos. Bactérias se tornam mais resistentes graças ao uso em massa de antibióticos nos sistemas intensivos de criação animal.

A sociedade ganha uma dose extra de violência com rodeios, farras do boi, rinhas de cães e outras atrocidades em que as crianças aprendem desde cedo qual é a lei que impera no reinado humano. Um império cuja herança é incerta, já que 30% da devastação da floresta amazônica é destinada à formação de pastos para o gado. A população de animais de corte nos EUA produz 130 vezes mais lixo que a população humana daquele país. É sabido que quando consumimos na escala mais baixa da cadeia alimentar (vegetais), reduzimos o consumo dos recursos naturais em até 90%.

Esses são alguns dos motivos pelos quais me abstenho do consumo de qualquer produto animal, incluindo leite, ovos, mel, couro, lã, seda, cosméticos que tenham sido testados em animais etc. O termo atribuído a esse estilo de vida é vegan, chamado por alguns de vegetarianismo radical - apesar de não sermos tão radicais quanto aqueles que estouram os miolos de um animal inocente apenas para sentir o sabor de sua carne por alguns segundos.

Como nutricionista, e apoiado por vasta literatura científica, posso dizer que o único produto animal essencial à nutrição humana é o leite - que deve ser o da própria espécie e ingerido apenas durante o período de amamentação. Depois dessa fase, os alimentos de origem vegetal são capazes de suprir todas as necessidades nutricionais de qualquer pessoa. E com vantagens, por se tratar de uma dieta isenta de colesterol e rica em fibras, vitaminas e minerais. Para aqueles que acreditam que os alimentos de origem animal são necessários para suprir as necessidades de proteína, ferro e cálcio, recomendo um estudo mais aprofundado. É muito fácil desenhar uma dieta vegan com 200% das recomendações de ferro, 150% de proteína e 100% de cálcio. É preciso que o debate seja informado pela literatura científica e não por campanhas publicitárias pagas pela indústria da carne e do leite. voltar

 

Vegetarianos radicais são magros, mas sadios, diz estudo

WASHINGTON (Reuters) - As pessoas que adotam uma dieta vegetariana radical, com o consumo apenas de alimentos crus, são magras, mas surpreendentemente saudáveis, disseram pesquisadores norte-americanos na segunda-feira.

Embora nutricionistas e a indústria de alimentos alertem que uma dieta sem laticínios possa provocar osteoporose, a equipe da Escola de Medicina da Universidade Washington, em Saint Louis, concluiu que os "vegans", como se intitulam, têm ossos fortes.

"Achamos possível que estas pessoas não tenham um risco maior de fraturas, mas que sua baixa massa óssea esteja relacionada ao fato de que elas são mais leves, porque ingerem menos calorias", disse Luigi Fontana, que liderou o estudo, publicado na edição desta semana da revista Archives of Internal Medicine.

Esses vegetarianos só consomem alimentos derivados de plantas, desde que não tenham sido cozidos, processados ou alterados. "Por causa do seu baixo consumo de calorias e proteínas, eles têm um índice de massa corporal (IMC) baixo e um baixo nível de gordura corporal. É bem documentado que um IMC baixo e a perda de peso estão fortemente associados com a baixa massa óssea e a um risco maior de fraturas, enquanto a obesidade protege contra a osteoporose."

O grupo estudou 18 vegetarianos radicais com idades entre 33 e 85 anos. Todos eles só consumiam legumes, frutas, nozes e grãos germinados, sempre crus. Em média, mantinham essa dieta há 3,6 anos.

Os pesquisadores compararam-nos a 18 norte-americanos "comuns". Os vegetarianos tinham IMC médio de 20,5, enquanto o outro grupo estava levemente acima do peso -- IMC 25. Considera-se que uma pessoa está no peso ideal quando seu IMC (o peso dividido pelo quadrado da altura) fica entre 18,5 e 24.

Fontana esperava que os "vegans" tivessem baixos índices de vitamina D, devido à ausência de alimentos de origem animal na sua dieta. Mas, na verdade, os índices de vitamina D desse grupo eram "marcantemente maiores" do que na média.

A vitamina D é produzida pela pele quando o corpo é exposto ao sol. Essa substância é essencial para a manutenção dos ossos. Devido à sua importância, ela é acrescida nas indústrias ao leite e a outros alimentos.

"Estas pessoas são bastante inteligentes para se exporem à luz do sol a fim de aumentar suas concentrações de vitamina D", disse Fontana.

Além disso, esses vegetarianos têm índice baixo da proteína C-reativa, uma molécula inflamatória que está sendo vinculada a ataques cardíacos, diabetes e outras doenças crônicas. E, para completar, eles têm índices menores de IGF-1, um fator de crescimento ligado ao risco de câncer da próstata e das mamas.

Fontana, porém, não defende a dieta com alimentos crus. Mas afirma que, para evitar o câncer e as doenças cardíacas, as pessoas deveriam comer mais frutas, legumes e grãos integrais. voltar