| Vegetarianismo
radical
Por George Guimarães
Há quem ache que matar animais é um direito
natural do homem. Assim como já houve quem achasse
natural na espécie humana o extermínio de uma
raça por outra.
O
cheiro de sangue é forte e pode ser sentido de longe.
No mercado a céu aberto, o cliente escolhe o animal
que lhe parece mais suculento. O golpe na virilha do cachorro
é rápido, mas a morte não vem depressa.
O sofrimento dura alguns minutos. Os animais que recebem o
golpe na jugular têm mais sorte. Mas os abatedores de
cães temem a mordida e preferem atacar o animal por
trás.
Essa
cena se repete diariamente na China. "Que absurdo",
diriam os ocidentais, para quem os cães são
animais de estimação. O mesmo diria um indiano
diante da forma como tratamos bois e vacas. Não há
diferença entre matar um boi e um cachorro para comer.
O raciocínio vale também para o esfolamento
de galinhas, porcos e outros animais.
Tortura,
dor, sofrimento, desolação. Animais de várias
espécies são tratados como mercadoria, apenas
mais um bem de consumo. Morrem covardemente e seus cadáveres
são vendidos aos pedaços. Crescem em ambientes
artificiais, agressivos à sua natureza. Como pode um
animal tão dócil quanto uma vaca ser privado
do seu instinto materno só porque a indústria
requer que se separe da sua cria quando esta tem apenas alguns
dias de vida? Como as aves, animais territoriais, podem viver
à razão de oito animais por metro quadrado e
não se tornarem neuróticas? Isso para não
falar das torturas exercidas nos testes dos laboratórios
científicos, mesmo existindo alternativas para o desenvolvimento
de novos produtos.
Há
quem ache um direito natural do homem submeter os animais
a todo tipo de crueldade, assim como já foi natural,
no passado, que algumas pessoas se julgassem superiores às
outras pela diferença da cor da pele ou do credo religioso.
Foi preciso que grupos abolicionistas e humanistas surgissem,
mesmo sendo ridicularizados e discriminados no início,
para que os homens enxergassem o absurdo na forma como tratavam
outros seres humanos. Haverá um momento em que o homem,
auxiliado por um novo tipo de abolicionistas - que falam por
seres que não podem falar por si - , saberá
que os outros animais não são sua propriedade.
São seres com direito à vida.
Enquanto
esse dia não chega, pagamos um alto preço sofrendo
de doenças ligadas ao consumo de produtos animais.
Obesidade, doenças cardiovasculares, diversos tipos
de câncer, alergias e outros problemas de saúde
que afetam boa parte da população de países
desenvolvidos como os Estados Unidos. Bactérias se
tornam mais resistentes graças ao uso em massa de antibióticos
nos sistemas intensivos de criação animal.
A
sociedade ganha uma dose extra de violência com rodeios,
farras do boi, rinhas de cães e outras atrocidades
em que as crianças aprendem desde cedo qual é
a lei que impera no reinado humano. Um império cuja
herança é incerta, já que 30% da devastação
da floresta amazônica é destinada à formação
de pastos para o gado. A população de animais
de corte nos EUA produz 130 vezes mais lixo que a população
humana daquele país. É sabido que quando consumimos
na escala mais baixa da cadeia alimentar (vegetais), reduzimos
o consumo dos recursos naturais em até 90%.
Esses
são alguns dos motivos pelos quais me abstenho do consumo
de qualquer produto animal, incluindo leite, ovos, mel, couro,
lã, seda, cosméticos que tenham sido testados
em animais etc. O termo atribuído a esse estilo de
vida é vegan, chamado por alguns de vegetarianismo
radical - apesar de não sermos tão radicais
quanto aqueles que estouram os miolos de um animal inocente
apenas para sentir o sabor de sua carne por alguns segundos.
Como
nutricionista, e apoiado por vasta literatura científica,
posso dizer que o único produto animal essencial à
nutrição humana é o leite - que deve
ser o da própria espécie e ingerido apenas durante
o período de amamentação. Depois dessa
fase, os alimentos de origem vegetal são capazes de
suprir todas as necessidades nutricionais de qualquer pessoa.
E com vantagens, por se tratar de uma dieta isenta de colesterol
e rica em fibras, vitaminas e minerais. Para aqueles que acreditam
que os alimentos de origem animal são necessários
para suprir as necessidades de proteína, ferro e cálcio,
recomendo um estudo mais aprofundado. É muito fácil
desenhar uma dieta vegan com 200% das recomendações
de ferro, 150% de proteína e 100% de cálcio.
É preciso que o debate seja informado pela literatura
científica e não por campanhas publicitárias
pagas pela indústria da carne e do leite. voltar
Vegetarianos
radicais são magros, mas sadios, diz estudo
WASHINGTON (Reuters) - As pessoas que adotam uma dieta vegetariana
radical, com o consumo apenas de alimentos crus, são
magras, mas surpreendentemente saudáveis, disseram
pesquisadores norte-americanos na segunda-feira.
Embora
nutricionistas e a indústria de alimentos alertem que
uma dieta sem laticínios possa provocar osteoporose,
a equipe da Escola de Medicina da Universidade Washington,
em Saint Louis, concluiu que os "vegans", como se
intitulam, têm ossos fortes.
"Achamos
possível que estas pessoas não tenham um risco
maior de fraturas, mas que sua baixa massa óssea esteja
relacionada ao fato de que elas são mais leves, porque
ingerem menos calorias", disse Luigi Fontana, que liderou
o estudo, publicado na edição desta semana da
revista Archives of Internal Medicine.
Esses
vegetarianos só consomem alimentos derivados de plantas,
desde que não tenham sido cozidos, processados ou alterados.
"Por causa do seu baixo consumo de calorias e proteínas,
eles têm um índice de massa corporal (IMC) baixo
e um baixo nível de gordura corporal. É bem
documentado que um IMC baixo e a perda de peso estão
fortemente associados com a baixa massa óssea e a um
risco maior de fraturas, enquanto a obesidade protege contra
a osteoporose."
O
grupo estudou 18 vegetarianos radicais com idades entre 33
e 85 anos. Todos eles só consumiam legumes, frutas,
nozes e grãos germinados, sempre crus. Em média,
mantinham essa dieta há 3,6 anos.
Os
pesquisadores compararam-nos a 18 norte-americanos "comuns".
Os vegetarianos tinham IMC médio de 20,5, enquanto
o outro grupo estava levemente acima do peso -- IMC 25. Considera-se
que uma pessoa está no peso ideal quando seu IMC (o
peso dividido pelo quadrado da altura) fica entre 18,5 e 24.
Fontana
esperava que os "vegans" tivessem baixos índices
de vitamina D, devido à ausência de alimentos
de origem animal na sua dieta. Mas, na verdade, os índices
de vitamina D desse grupo eram "marcantemente maiores"
do que na média.
A
vitamina D é produzida pela pele quando o corpo é
exposto ao sol. Essa substância é essencial para
a manutenção dos ossos. Devido à sua
importância, ela é acrescida nas indústrias
ao leite e a outros alimentos.
"Estas
pessoas são bastante inteligentes para se exporem à
luz do sol a fim de aumentar suas concentrações
de vitamina D", disse Fontana.
Além
disso, esses vegetarianos têm índice baixo da
proteína C-reativa, uma molécula inflamatória
que está sendo vinculada a ataques cardíacos,
diabetes e outras doenças crônicas. E, para completar,
eles têm índices menores de IGF-1, um fator de
crescimento ligado ao risco de câncer da próstata
e das mamas.
Fontana,
porém, não defende a dieta com alimentos crus.
Mas afirma que, para evitar o câncer e as doenças
cardíacas, as pessoas deveriam comer mais frutas, legumes
e grãos integrais. voltar |